Em destaque

Ser espírita em Portugal

.

ESTE TRABALHO É DESTINADO AOS PORTUGUESES QUE SE ENTREGAM A UM ESPIRITISMO TOTALMENTE CONFIGURADO NO BRASIL, SEM TEREM A MÍNIMA IDEIA DO ITINERÁRIO HISTÓRICO QUE A DOUTRINA ALI PERCORREU E QUAIS AS TRANSFORMAÇÕES PORQUE PASSOU.

A intenção deste trabalho é a de abrir janelas sobre esse fenómeno, dando prioridade às opiniões que em Portugal não têm sido ouvidas.
As estruturas federativas pretendem dar uma imagem de unanimidade pacífica e de concordâncias inexistentes. Quem perde é a mensagem dos Espíritos como nos foi legada por Allan Kardec, que a todos serve com nobreza e legitimidade.
As contradições desse processo, acarretam inconvenientes graves para a grande cultura espirita que esclarece as principais questões da vida e da morte, apontando-nos o caminho seguro para uma evolução sem limites.

Os espíritas brasileiros, muito embora sejam uma minoria fragmentada em várias tendências, representam um universo muito rico. Pode lá ir buscar-se o espiritismo que melhor nos sirva, mais aproximado ou mais afastado da mensagem de Allan Kardec.
O MEIO ESPÍRITA PORTUGUÊS DOS CENTROS FEDERADOS VIVE COMPLETAMENTE SOB TUTELA DA FEB – FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA, pelo que tenho recomendado aos interessados que se aproximem da doutrina de forma cultural, pelos seus próprios meios – de preferência lendo e estudando o mais possível metodicamente toda a obra de Allan Kardec.

Nada perdem com isso, sendo muito fácil observar que nos centros espíritas em Portugal, a prática do diálogo aberto é quase nula, falam sempre os mesmos e dizem sempre o mesmo.
QUANTO AO ROUSTAINGUISMO OFICIAL E ESTATUTÁRIO DA FEB-Federação Espírita Brasileira, ninguém lhe falará nisso!…

ATENÇÂO, porque aqui vai divulgar-se amplamente o que muitos dos nossos bons amigos brasileiros – grandes e cultíssimos estudiosos da causa espírita – sabem e esclarecem a esse respeito num clima aberto de diálogo racional e anti-dogmático!…

.


allan_kardec



Hipólito Leão Denizard Rivail, fundador da doutrina científico-filosófica com objectivos morais, chamada espiritismo, termo por ele criado em 1857, no momento em que publicou o livro fundamental da doutrina dos Espíritos, isto é: “O Livro dos Espíritos” que assinou sob o pseudónimo de Allan Kardec.


 O “roustainguismo” afinal existe ou não em Portugal?…

Esta é a dificuldade principal dado que o “roustainguismo” em Portugal não corre à superfície.
ESTÁ OCULTO DEBAIXO DAS PRÁTICAS QUE SE FORAM APODERANDO DE PRATICAMENTE TODAS AS CASAS ESPÍRITAS FEDERADAS.
Uma explicação completa deste tema é difícil de fazer exactamente por causa dessa ocultação enganosa.

Nenhum dirigente espírita em Portugal vos dirá que é adepto do roustainguismo e muito menos apresentará sequer o assunto. Um pouco envergonhadamente, quer a teoria quer a prática dessa escola de actuação e pensamento, lá vai passando na prática diária, sem timidez.
É NA PRATICA CONCRETA DE TODOS OS DIAS E DE TODAS AS ACTIVIDADES que essa tendência se exercita da forma mais evidente.

A desvalorização progressiva de obra de ALLAN KARDEC

Como é sabido de todas as pessoas que se dedicam ao estudo destes temas, a origem mais nítida e a consequência mais séria deste fenómeno é a SUBALTERNIZAÇÃO, A INDIFERENÇA E O EMPOBRECIMENTO DO ESTUDO ACTIVO DA OBRA DE ALLAN KARDEC.
Nunca ninguém fez uma estatística séria das pessoas “espíritas” que nunca leram os cinco livros principais que constituem o núcleo essencial da cultura espírita, e julgo até que uma grande maioria dos que se consideram espíritas nunca leram sequer, de modo atento e metódico, “O Livro dos Espíritos”.
Fazendo a pergunta às avessas, para não ser tão contundente, gostaria de saber, ainda que aproximadamente, qual a percentagem dos dirigentes espíritas mesmo, que ainda não teve tempo para ler e reflectir convenientemente sobre toda a obra de Kardec?!…
Donde, a aceitação sem critério das mil e uma penetrações esotéricas que fazem parte integrante do dia a dia das palestras dos centros espíritas em Portugal, com a integração de vocabulários completamente alheios à cultura espírita propriamente dita, QUE CONSTITUI UM SISTEMA CIENTÍFICO-FILOSÓFICO, com objetivos morais, ESTRUTURADO COM A MÁXIMA SERIEDADE na obra de ALLAN KARDEC, nos seus cinco livros principais e enriquecido e documentado largamente noutras obras de sua autoria, sem esquecer as seis mil páginas publicadas durante onze anos na REVISTA ESPÍRITA.
Os grupos esotéricos que proliferam por todo o mundo, já para não falar nas igrejas organizadas e poderosíssimas do cristianismo dogmático, cujo vocabulário é cada vez mais abundantemente utilizado pelos palestrantes e dirigentes espíritas, não tem perante o espiritismo a mesma atitude permissiva e laxista.
Experimentem os espíritas que me lêem, se o não fizeram já, dialogar com católicos, evangélicos e um dos membros dos inúmeros grupos espiritualistas, frequentemente muito mais fortes e bem organizados que o desarticulado meio espírita, e saberão com desconforto e desagrado do que estou a falar, concluindo pelo seu explícito anti-espiritismo.
A respeito de algumas destas organizações religiosas, poderosíssimas e globalmente influentes, lancemos quanto mais não seja um breve olhar à História da Humanidade, observemos as abomináveis consequências da sua atitude perante povos e continentes inteiros, e isto inclui de forma evidentemente clara toda a América Latina!…


•    Um dos sintomas mais claros da invasão silenciosa da influência roustainguista nos meios espíritas, é a prática constante da CRISTOLATRIA, com laivos crescentes de DOGMATISMO, em tudo paralelos ao que se verificou, de há muitos séculos, com as doutrinas dogmáticas baseadas na visão distorcida dos ensinamentos de JESUS DE NAZARÉ que nada tem a ver com Jesus, o Cristo (o “ungido”, ou filho unigénito de Deus!…).

•    A Cristolatria deriva directamente das concepções da sacralização de Jesus, ao qual se fazem as orações nos centros espíritas, no princípio, no meio e no fim das sessões e palestras.

•    O espiritismo é monoteísta e baseia-se na existência de uma inteligência suprema criadora de todas as coisas, a que chamamos DEUS. A chamada santíssima trindade foi inventada há mil e setecentos anos pelas igrejas dogmáticas, seguindo interesses políticos bem caracterizados e nada religiosos, que desvalorizaram Jesus de Nazaré e os seus ensinamentos. Até lhe trocaram o nome passando a chamar-lhe CRISTO, adjectivo que não é nome, mas que serviu para a sua sacralização e consequente instrumentalização político-institucional.

Além disso observa-se nos centros federados:

•    a prática enraizada de ritualismos vários, como a “água fluidificada” o “passe padronizado”, etc. – coisas ausentes do ensino dos Espíritos, longe da pureza inicial do passe pela imposição das mãos, como fez Jesus;

•    o formalismo da igreja confidencial, esotérica e ocultista com catecismo, clero informalmente muito bem organizado (a falta de diálogo impera e limita o conhecimento da cultura espírita).

• Nos centros espíritas a palavra é reservada apenas aos concordantes incondicionais, aos dirigentes da casa, e aos “convidados especiais”, muitos deles brasileiros;

•  Na aceitação vulgarizada de dados culturais exóticos que nada têm a ver com o espiritismo; os orientalismos e sincretismos de vária ordem, de origem espiritualista, teosófica e esotérica etc. donde a grande variedade de termos esquisitos alheios à cultura espírita;

•    e em muitas atitudes interiores que não enganam porque têm a marca influente de quem as criou e desenvolveu, sem que tenham a ver – nem muito nem pouco – com essa outra cultura a que podem chamar os que a amam e respeitam: o espiritismo.


Caros espíritas portugueses,

O estudo da doutrina espírita pode perfeitamente fazer-se de forma individual e independente, de acordo com a sensibilidade de cada um.
O autor deste trabalho tem sido sempre muito interessado a respeito do espiritismo, que tem estudado de forma independente, na versão racional e aberta, científico-filosófica e com profundos objectivos morais, tal como foi organizada em meados do século XIX por Hippolyte Léon Denizard Rivail, aliás Allan Kardec.
Na internet não faltam elementos para estudar o espiritismo da vertente que mais nos agradar e para os interessados haverá sempre um amigo com quem dialogar, estando o autor deste trabalho permanentemente disponível para estabelecer o diálogo, registar ideias, sugestões ou críticas e responder às questões que lhe forem remetidas, pelos comentários ou pelo e.mail desta página:  luzycor@sapo.pt

É fundamental que se entenda que os livros genuínos da cultura espírita, não são só para ler, mas para estudar com toda a atenção.

Quanto as esta publicação só ganhará a devida expressão com a necessária continuidade e com a participação dos visitantes. Para esse efeito solicito o seguimento e a leitura atenta dos visitantes de espírito aberto, dialogante e anti-dogmático.

Os textos que aqui vão aparecer reúnem estudos de investigadores espíritas brasileiros DO MÁXIMO VALOR que têm, ao longo de muitos anos, feito a crítica corajosa  de um estado de coisas muito complicado de desmontar, repleto de ocultações sem nome e distorções lamentáveis.
O objectivo é defender uma cultura essencial para viver a vida com serenidade de consciência, confiança e optimismo.
O Espiritismo é uma  visão essencialmente positiva e optimista das origens e do destino da humanidade, no contexto da mais surpreendente realidade, que nos é oferecida a todo o instante no maravilhoso Universo que nos rodeia, fruto sem limites nem fronteiras do magnânimo e  imperturbável pensamento de Deus.

Francisco Alves

.

.

.

 

Anúncios

O Livro dos espíritos traduzido na nossa língua. Era tempo!…

Pela importância que tem para a divulgação das ideias que também norteiam este blogue, fazemos aqui cópia directa de parte de uma notícia que foi publicada em espiritismocultura.com

Achamos interessante (e raro…) que, depois de realizarem uma edição impressa, os autores desta tradução – José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, a quem manifestamos a sincera admiração – decidiram também colocar o seu imenso trabalho à disposição livre de todos os interessados que pesquisam na Internet.
Sugerimos pois a todos os leitores de língua portuguesa que DIVULGUEM ESTE FACTO. Vale bem a pena.

Em edição aberta e livre para todo o mundo de língua portuguesa...
.
TERCEIRA EDIÇÃO REVISTA

FICHEIRO PDF PROVISÓRIO DA OBRA COMPLETA, DISPONÍVEL AO FUNDO DESTA NOTÍCIA

 

Esta é a nova edição da nossa tradução de “O Livro dos Espíritos” directamente do francês para português de Portugal, com duas notas de apresentação de grandes amigos nossos e distintos espíritas, JOÃO XAVIER DE ALMEIDA e JOÃO DONHA, ambos notáveis conhecedores da nobre lingua portuguesa, um portugês, outro brasileiro.

A nossa tradução tem o intuito de ajudar a criar uma nova geração de leitores de “O Livro dos Espíritos”, sobretudo junto de pessoas não espíritas , mas que também poderá, com proveito, ser lido por pessoas já conhecedoras do tema.

Inclui um prefácio dos tradutores, dirigido a essas pessoas e um nutrido grupo de Notas finais acerca das diferenças de cultura, de sensibilidade e de terminologias entre o que era antes e o que é hoje, relativamente ao tempo em que a obra foi organizada por ALLAN KARDEC, em meados do século XIX.

O trabalho geral de revisão do livro traduzido foram movidos pelos seguintes propósitos:

Primeiro
Aproximação mais acentuada do francês praticado pelo autor da obra ao português falado nos nossos dias, com critérios de ordem gramatical e lexical coerentes com o espírito da cultura respectiva.

Segundo
Sendo “O Livro dos Espíritos” a obra basilar da cultura espírita, o leitor terá um acesso mais fácil e penetrará mais fundo na restante obra de Allan Kardec.

Terceiro
A vontade de abertura sinalizada no prefácio de autores e o franco desejo de debate de ideias sugerido nas Notas finais do Livro sugerem o recentramento da obra de Allan Kardec no estudo fundamental da cultura espírita.

CLICAR NA IMAGEM PARA TER ACESSO AO FICHEIRO PDF

 

 

.

O Brasil é o coração do mundo e a pátria do evangelho?

.

.

Pedimos às pessoas que leiam com muita atenção o artigo de mzanolini, no site da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PEDAGOGIA ESPÍRITA  de forma a poderem fazer um juízo do vídeo que é motivo do debate, e das “opiniões” expostas.
Perante esses conteúdos, a apreciação feita por mzanolini parece-me exemplarmente racional e do melhor nível do entendimento intelectual que são objectivos defendidos no valioso site da ABPE.

Quanto ao tema do coração do mundo e da pátria do evangelho, como é defendida pelo palestrante do vídeo, por que caminhos tem andado a sua perceção da cultura espírita? deixamos isso ao critério de quem tenha curiosidade de escutar o que diz.

O ensino dos espíritos e a Filosofia Espiritualista (ver antetítulo de “O Livro dos Espíritos”) vão prosseguindo sem alarmes a sua marcha. E os verdadeiros interessados não se deixarão perturbar.
Às pessoas de boa fé que possam ter dúvidas, além do alerta, colocamos a seguinte pergunta:

Onde pára a fé raciocinada, o sentido da verdade e da justiça, o rigor histórico e filosófico, a apreciação realista dos problemas sociais, a visão do progresso e da paz? Onde pára, em suma, a claridade emancipadora, progressista e esclarecida da cosmovisão espírita?

O Brasil é o coração do mundo e a pátria do evangelho?

Viralizou nas redes sociais um trecho editado de um evento de 2015, o 4º Congresso Espírita do Conselho Espírita do Estado do Rio de Janeiro. No trecho (vídeo abaixo) que tem sido insistentemente compartilhado pelos espíritas, o jornalista André Trigueiro propõe uma reflexão interessante. Diante de estatísticas que mostravam um número muito pequeno de brasileiros dedicados ao voluntariado, números altíssimos de homicídio, de aborto e roubo de carros, sem contar a Lava Jato que naquele ano já tinha o título de maior escândalo de corrupção da história, poderíamos afirmar que o Brasil é o coração do mundo e a pátria do evangelho?

Na roda de palestrantes que foram instigados pela provocação de Trigueiro estavam César Braga Said, Divaldo Franco, Haroldo Dutra, Alberto Almeida e Sandra Della Pola. No trecho divulgado, o vídeo foi editado e só a fala de Haroldo Dutra aparece.

O livro que afirma que o Brasil seria essa pátria do evangelho além do coração do mundo, foi escrito em 1938 pelo médium Chico Xavier, psicografando o texto do espírito Humberto de Campos (Irmão X). Em suas páginas, o autor nos mostra os bastidores dos processos decisórios dos administradores do planeta para fazerem da terra que viria a ser o Brasil, a sede do evangelho de Jesus no mundo, e que no futuro irradiaria luz, paz e fraternidade para os demais povos.

Nesses 80 anos que nos separam da publicação do livro, muitas críticas foram feitas ao seu conteúdo. As incongruências históricas como por exemplo considerar o povo português como o mais pobre e o mais trabalhador da Europa, e as incongruências narrativas como a surpresa e o choro dos anjos ao saberem de atrocidades cometidas pelos espíritos encarnados, num texto carregado de jargão católico, desafiam a razão.

Afirmações categóricas sobre o alto nível evolutivo de personagens da história brasileira como Tiradentes e Dom Pedro II sem um exame mais profundo  de suas vidas, revelando uma idealização ufanista; conceitos sem nenhuma evidência sobre o magnetismo especial da posição geográfica do Brasil, entre outras passagens, ditados por um único espírito, sem nenhum tipo de confirmação por outros médiuns e outras psicografias, sem nenhum apoio da história e da ciência, não teriam passado pelo crivo de Kardec.

Mais do que isso, em 1949, a Federação Espírita Brasileira (FEB) definiu que caberia aos espíritas do Brasil colocarem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo. Essa determinação que passou a fazer parte do estatuto da instituição na ocasião do Pacto Áureo (união das instituições espíritas em torno da FEB), amarrava mais ainda ideias roustanguistas à doutrina espírita. Não por acaso no capítulo 22 do livro, Jean-Baptiste Roustaing é apresentado como um dos cooperadores de Kardec. A recente polêmica sobre a adulteração do livro A Gênese mostra que o roustanguismo se infiltrou no espiritismo assim que Kardec morreu, e veio da França para o Brasil, fincando raízes profundas, místicas e catolicizantes, que só agora começam a ser arrancadas.

No vídeo, Haroldo Dutra dramatiza as interações entre os personagens do livro. Jesus, Ismael e os anjos se envergonham, choram, se desesperam, até que o “governador da Terra” pede pra Ismael levar uma “turba de espíritos infelizes” para povoar o Brasil. Na leitura de Haroldo o Brasil é um “hospital” e não uma “galeria de arte”, não foi feito para “exibir santos”, mas sim para “regenerar seres”, já que “o que há de pior” está aqui. Esse constante reforço da ideia de oposição entre espíritos evoluídos e espíritos “caídos” é a base da influência do roustanguismo na doutrina espírita. O que no espiritismo de Kardec é aprendizado natural, evolução contínua, livre e responsável se torna tragédia, queda, punição nas doutrinas de Roustaing.

A tese central de Roustanig sobre a natureza especial do corpo de Jesus parece pontual e sem importância, mas tem consequências profundas. Se Jesus não reencarnou nas mesmas condições que todos os homens, não sofreu as dores e as delícias de uma vida física, sua forma de viver a vida, e portanto seu exemplo, perde força. Além disso, essa ideia estabelece um abismo entre os espíritos ditos evoluídos e a maioria dos espíritos encarnados que seriam atrasados evolutivamente. Esses conceitos alimentam ideias que rotulam espíritos como “trevosos”, derivando cenários de batalhas épicas entre legiões das trevas e espíritos de luz. O recorrente medo dos “espíritos obsessores”, a separação entre espiritismo e umbanda (que é considerada inferior), o tabu da mediunidade nos centros espíritas e por fim o misticismo e a falta de critério racional que dominam o mercado editorial, são consequências diretas disso.

A defesa que Haroldo faz do livro é uma defesa do posicionamento da FEB, do Pacto Áureo, do roustainguismo, ainda que ele faça isso com um verniz de humildade (ele diz que ele mesmo “é um deles”, se referindo aos “piores” espíritos que foram “trazidos” para o Brasil, arrancando aplausos de uma platéia que o idealiza e venera). O ufanismo do livro de Humberto de Campos, em consonância com o contexto histórico em que foi escrito (o nacionalismo do Estado Novo), ainda hoje desperta sentimentos de que seríamos um “povo escolhido”, e a platéia, os espíritas (que se vêem como os “verdadeiros” cristãos”), se identificam fortemente com isso e por trás do discurso cheio de suposta humildade, há uma grande pretensão.

Voltando à provocação de André Trigueiro que nos pergunta a todos se, considerando o cenário atual em que “a fome devora nossos irmãos agonizando entre riquezas e os abutres dividem o tempo em guerra e paz para banquetear os lucros” (para citar o Canto da Libertação de Herculano Pires), o Brasil seria então o coração do mundo e a pátria do evangelho?

Acho que a pergunta não faz sentido. Não podemos ser aquilo que não construímos. Se quisermos ser qualquer coisa que seja, precisamos “nos atirar, certos, serenos, firmes, seguros e confiantes, na construção desse futuro” – lembrando de novo Herculano – conscientes de que somos todos iguais. Qualquer discurso de pretensa superioridade espiritual de um povo, de um grupo, de uma corrente espiritual revela na verdade uma boa dose de vaidade, ufanismo e mistificação.

 

Um desafio apresentado aos espíritas portugueses

O meio espírita português, depois de cinquenta anos de proibição durante o chamado “estado novo”, não soube manter a sua independência cultural nem conservar a proximidade ao espiritismo europeu, científico-filosófico e dialogante tal como  no-lo apresentou Allan Kardec;

Atualmente o espiritismo em Portugal chega-nos através do Brasil, onde atravessou século e meio de fenómenos histórico-culturais muito específicos e sofreu desvios muito profundos. Esse estado de coisas não é ignorado no Brasil onde se têm distinguido elevado número de prestigiados estudiosos espíritas.

Muitos dos centros espíritas atuais, quer no Brasil quer em Portugal, recusam o “roustainguismo” (ver com cuidado os trabalhos já aqui publicados a esse respeito) por carecer de prestígio cultural e por ter sido rejeitado pelo próprio codificador Allan Kardec, MAS SEGUEM-NO DE FORMA SISTEMÁTICA NA SUA PRÁTICA DOUTRINÁRIA E IDEOLÓGICA.
EM CONCLUSÃO – Há muitos espíritas que seguem esses princípios e essa prática e não têm a mínima consciência disso!…

Deixam de lado uma cultura optimista e libertadora e entram num clima dogmático e penalizante, demasiado influenciado pela ideologia católica, a mesma que sacralizou Jesus de Nazaré para o afastar dos homens seus irmãos.
Jesus é nosso modelo, como nos diz o ensino dos espíritos, mas é detentor de um Espírito do mesmo tipo que o nosso e encarnou com um corpo exactamente como o nosso, tendo sido  nessa qualidade e nessas condições que viveu entre nós;

O modelo “roustanguista” tem desvirtuado completamente a natureza e qualidade espiritual de Jesus de Nazaré, bem como tem afastado Allan Kardec, substituindo-o por uma multidão de médiuns famosos e suas criações absurdas, desviadas da preciosa cultura espírita.


LIBERDADE E INDEPENDÊNCIA DE PENSAMENTO

O autor destas linhas e desta página não fala em nome de grupos organizados, tendências ideológicas ou cismas religiosos. É um cidadão português como qualquer outro, muito interessado pela cultura espírita, pela utilidade e valores com que nos enriquece para o presente, nesta e nas vidas futuras que nos esperam.

O espiritismo português na sua prática actual

Há em Portugal uma federação espírita que faz aquilo que qualquer federação faz, isto é, controla e uniformiza critérios; seleciona como centros “autênticos” aqueles que se identificam com o modelo que propõe.
Pelo conhecimento das pessoas e por sinais e exteriorizações que se tornam evidentes dá para conhecer o procedimento desses centros, incluindo e descontando os casos particulares.
Os palestrantes espíritas tornam-se conhecidos e fornecem uma visão padronizada, usam a mesma linguagem e denotam as mesmas tendências.

Os médiuns famosos importados do Brasil

A visitação de palestrantes e médiuns famosos de origem brasileira repetem-se, trazendo-nos sempre pessoas do universo da FEB-Federação Espírita Brasileira.
Uma constante muito dinamizadora desses eventos é a mesa dos livros repleta de frutos da bem oleada máquina de exportação de obras mediúnicas da todo-poderosa FEB e respectivo pessoal itinerante.
Os médiuns que “assinam” esses livros e os palestrantes brasileiros que nos visitam, têm vindo a assenhorear-se de todo o horizonte da cultura espírita em Portugal, sendo um facto que nem no Brasil gozam de prestígio consensual, muito longe disso.

EPSON scanner Image

Allan Kardec, cada vez mais um símbolo distante que não se estuda a sério

Os livros de Kardec ficam lá atrás, na zona administrativa do centro ou na prateleira da receção, onde disciplinadamente se alinham, longe da grande mesa repleta de obras magrinhas do mediunismo confuso que nada adianta para os que realmente querem alcançar uma ideia amadurecida sobre a origem e o destino da humanidade.
Essas numerosas obras com ficções mediunísticas sem sustentação científica nem lógica doutrinária, as frases do misticismo pseudo-poético que nem empolgam nem elucidam, os termos exóticos sem nenhuma referência concreta à filosofia consistente do espiritismo estudado a sério, as projecções do orientalismo, da teosofia – alheios e até antagonistas da nossa cultura, eu sei lá…